Conta que eu conto – O Ar

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Daniela contou:

Encontrei o homem da minha vida. Amei incondicionalmente. Engravidei, casei e virei amélia. Amava ser mulher de verdade sem a menor vaidade. Vieram os chifres. Muitos. Separei. Me apaixonei de novo por uma mulher. Que me faz ser vaidosa e linda.

 

Virou História

O ar

Daniela era dessas que nunca ia se apaixonar. Não que tivesse tecido uma muralha ao redor dela, não que fosse daquelas que só pensavam em trabalho. Daniela não sabia suspirar. Era uma disfunção estranha que médico nenhum conseguiu explicar. Alguma coisa acontecia ali entre o pulmão e o coração dela e impedia que o ar desviasse o caminho, não subindo para a cabeça e não tirando-lhe o chão. Ela pisava perfeitamente e estava acostumada com isso. Não fazia falta aquilo que nunca sentiu.

Mas Daniela era daquelas que iria amar. Casou, mudou, deixou lembranças. Amou incondicionalmente. Sem condição nenhuma. Sem exigir suspiros. Sem prometer suspiros. Sem ser cobrada por eles. Mas Daniela fechava os olhos e se imaginava suspirando e foi assim que nasceu Rafaela. Menina linda, que veio ao mundo como se posasse para a moldura da vida. E Daniela não contou os dedinhos da pequena. Assim que a teve nos braços, colocou a orelha pertinho do peito da menina, tentando entender se o ar dentro dela corria direito. Naquela idade tão Rafaelinha, o ar engatinhava ainda. Não dava para saber se ela tinha saído à mãe. Daniela torcia para que ela fosse como o pai. Como amava aquele homem. Tão homem, tão forte, tão seu, tão camisa-bem-passada, tão botões-pregados, tão bolo-quente-saindo-do-forno, tão casa-limpa-quando-voltava-do-trabalho, tão janta-na-mesa, tão boa-noite-querida. E assim, ela que não tinha ar andarilho, também não tinha vaidade, era como a música, Daniela de verdade.

Mas Daniela era do tipo de mulher que iria soluçar. Foi um engasgo. Um susto. O ar ali, perdido do lado de fora. Foi onde o marido dormiu, naquele noite sem sol que se repetiu tantas vezes até ela amanhecer em si. Na mão já não havia nada, nem no riso, nem nos olhos. Apenas soluços. Soluços silenciosos. E foi num desses que alguma coisa aconteceu dentro dela. Os médicos disseram que uma válvula se rompeu. Daniela finalmente conseguia segurar o ar no peito por alguns segundos e soltá-lo só depois de olhar para Carmem. Para a linda Carmem.

Daniela agora era mulher que suspirava. Os médicos consideravam um milagre. Ela tinha uma explicação melhor. Como o ar, Daniela também encontrou seu caminho.

 

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Conta que eu Conto é assim: você conta e eu aumento, invento, exagero, imagino, mudo tudo, até o seu nome.

Faça como a Daniela, que não se chama Daniela, claro, e mande sua história em até 280 caracteres para sussycom3s@gmail.com

 

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