O hacker do amor

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Joaquim era detetive particular fazia 37 anos. Era dos bons tempos da pexeira e da bala. Era da época do crime passional. Ah! Como adorava esse termo: crime passional. Até batizou seu cachorro assim. Passional, para a tristeza do dono, era um cachorro pacato, manso, quieto.

Ele sonhava com o dia em que o bichinho o mordesse por vê-lo fazer carinho em outro cachorro. Mas não. Ele abanava o rabinho e vinha brincar junto. Era mesmo o fim dos tempos. Mas o que o incomodava de verdade era o silêncio do seu telefone. Como um músico deprimido e enferrujado, ele tocava cada vez menos. E quando tocava, era aquela decepção . O trabalho já estava pronto.

O que ele mais gostava na vida era de juntar provas. De pegar casos difíceis. Descobrir o fio desencapado daquele marido exemplar. Encontrar um cabelo na sopa da dedicada esposa. Isso para ele era a glória. Ah! Os bons tempos.

Hoje, as evidências tomaram o lugar das pistas. Está tudo ali no mural para quem quiser ler. Existe até um negócio que conta cada passo do sujeito. Mas ele sabe que isso é pra despistar corno. Claro que é. Só pode ser.

Mas para Joaquim, o fim da picada era seguir pelo twitter. Era o cúmulo do constrangimento. Ele que alugava táxis só para dizer: “siga aquele carro” agora ficava de bermuda velha atrás de um computador. “Cria um fake e segue ela. Manda DM, pra ver se ela dá moral, manda?!”. Aquilo era muita humilhação.

E a quantidade de seguidores que havia por ali? Ele lembrava sempre dos tempos de glória, em que Detetive Particular tinha um status que fazia dele o próprio Sherlock Holmes.Hoje, quando Joaquim diz que é detetive sempre houve: “Nossa, eu também sou. Me solta no google pra você ver se não varro a vida da pessoa em meia hora”. Ele tinha vontade de se deletar.

Joaquim precisou dar seus pulos, por isso montou um curso chamado Hacker do Amor. Em 3 dias ele promete fazer a pessoa descobrir se o amado está realmente nos locais em que deu chekin ou se apenas deu uma rapidinha ali; descobre entre as novas amizades, quais são ex-peguetes e, com o pagamento de um adicional, até consegue entrar na caixa de DMs.

Ele consegue pagar as contas, tem até uma clientela boa. Mas teve vontade de trabalhar num banco quando viu que sua última cliente traída deixou um recado cheio de raiva na página do cafajeste, xingou muito no twitter e deletou seu perfil em seguida. Ô saudade dos tempos das balas e pexeiras. Pobre @Joaquim.

 

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