O jogo dos bichos

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Naquela manhã tinha dado Antônio na cabeça. Foi um tiro. Um assalto quando ele saía para o trabalho, às 5 da manhã. Ele tinha que ir cedo, dependia do ônibus que sempre atrasava. E era muito escuro, horário de verão para o Brasil do Antônio economizar. A polícia chegou meia hora depois. Não havia viatura disponível, disse o sargento.

O crime não foi investigado, era só um Antônio.

Sonhar com morte é o quê? E deu dona Zefa, há 7 anos na fila por um transplante de coração. Todo dia indo ao hospital, dormindo na fila, vendo mortes mais apressadas que a dela, sentindo cheiro de abandono naquele corredor de éter. A família apostava que seria assim. E foi.

Já Beatriz passou raspando. Menina de 6 anos que dependia de remédio controlado. Bia, para os que acompanhavam a luta da sua mãe, tomava 26 comprimidos diariamente. Uma refeição farta que o arroz, feijão e ovo da sua família não podia pagar. Eles dependiam de doses de paciência na fila todo começo de mês. Mas naquele cais, a vida estava em falta. Era o caos dos medicamentos que se desviavam nas esquinas. Beatriz achava que era o maior azar os remédios não terem chegado. Bia era menina ainda. Acreditava que era a sorte quem brincava de matar.

Na cartela também apareceu Armandina, professora sem aumento e com diminuição constante de fé. Ela já não acreditava em mais nada. Jogava com o que podia e podia cada vez menos.

O Jogo dos Bichos acontecia debaixo de tapetes de veludo, de aço, de água. O resultado era sempre o mesmo, independente do número, Era um jogo de apostas. Apostavam que nunca daria em nada e que os bichos estariam sempre ali. Os reis da selva seguiam sem medo de quebrar a banca. E os bichos, presos na democrática cartela, esperavam silenciosos a mont blanc que riscaria sua face. Eram sempre antônios na cabeça.

 

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