O taxista que me pagou um café, mas cobrou a corrida.

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Uma suposta visão do taxista.

 

Era uma moça com uma mala. Ela parecia cansada. Tinha decido de uma táxi branco como o meu e cambaleou com a bagagem como se fosse pesada demais pra ela. Não tirou nenhuma chave da bolsa, o que me fez concluir que era uma visita. Muito cedo para uma visita aparecer, eram 7 da matina. Eu tinha acabado de chegar ao ponto e não havia pego nenhum passageiro ainda. O ponto estava parado e me permitiu observá-la.

Os transeuntes são os personagens dos taxistas. Os assistimos como a única novela que conseguimos acompanhar. Os protagonistas normalmente são os passageiros, alguns de cinema mudo, mas ainda sim protagonistas.

Voltando a cena da moça, ala não tinha uma chave e estranhamente não tocou a campainha. A vi retirar o celular da bolsa e ligar. Ligou uma, duas, três vezes. Impaciente, encostou-se na portaria do prédio sem porteiro. Havia mais que cansaço naquele olhar. Olhou para meu táxi e não me viu. Seus olhos percorriam outro destino. Acredito que pensou em ir embora. Mas não foi longe. Carregou a bagagem e sentou-se na padaria ao lado.

Calculadamente escolheu uma cadeira que a deixava de frente para a portaria, de forma que ela pudesse perceber qualquer movimento. Na primeira vez que pensei em me aproximar, surgiu um passageiro. Droga. Tão cedo e gente já pensando em corrida? Mas eu não podia recusar cliente. Fui o mais rápido que pude naquele trânsito infernal que enfrento desde que sai da minha Paraíba, há mais de 30 anos. E ele nunca pareceu me castigar tanto com a sua demora. Tinha certeza de que quando eu voltasse para o ponto ela já não estaria mais lá. Mas estava.
– Ainda não tocou a campainha?
– Como?
– Vi quando você chegou. Não fica triste não.
– Não estou triste não, apenas esperando.
– Toda espera é triste, não é mesmo?
– Pode ser.
Eu percebi que ela não queria conversar. Percebi também que meu próximo passageiro não queria esperar. Parti dizendo que voltava logo. Ela sorriu amarelo, com certeza torcendo para que não estivesse lá quando eu retornasse. Nada pessoal, tenho certeza. Afinal, o que ela mais queria era que uma porta se abrisse e a tirasse dali. Eu só queria conversar com ela, não sei bem o motivo, mas nós, taxistas, percebemos quando devemos puxar assunto. Aquela moça era do tipo de passageira que se sentava no banco da frente.

Sem querer e sem ter escolha, fui para mais uma corrida, dessa vez era bem perto. Voltei e ela estava na mesma posição que deixei: queixo apoiado na mão, apoiada no braço, apoiado na mesa. Ofereci então meu apoio.
– Já tomou café?
– O do avião.
– Mas aquilo não é café. Vou pegar um pra você.
– Não, não. Não precisa, obrigada!

Menos de um minuto depois eu estava sentado na mesa com um café em cada mão. A moça ficou sem graça, mas bebeu. Não se recusa um café de um senhor. Principalmente quando ele já passou dos seus 60 anos. É. Isso facilita a aproximação, mas dificulta outras coisas. Mas não falemos aqui de quais intenções eram as minhas. Naquele momento, apenas tornar a espera da jovem menos lenta. Ela mostrou interesse pela minha história. Contei da minha Paraíba, das minhas andanças, da família, da saudade da terra. Só depois percebi que a esperta moça havia conseguido tirar todo o foco de cima dela. E quando perguntei quem ela havia ido visitar, mais um passageiro me chamou. Aquela passageiro mal educado não podia esperar nem mais um gole.
Quando voltei, a moça já não estava lá. Seu café estava por dois dedos. Havia uma marca de batom no copo. Não consegui terminar meu café aquele dia e deixei as outras refeições pela metade. Teria ela tocado a campainha ou teria se tocado?
Não sei. Dias depois ela entrou no meu táxi. (Numa cidade daquele tamanho e ela entrou justo no meu táxi!) Mas ela falou ao celular a viagem toda, aposto que de propósito só pra eu não puxar assunto. Só de raiva eu cobrei a corrida. Bandeira dois.

 

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