Procedimentos de rotina (ou nem tanto)

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Não que eu tenha medo de viajar de avião, mas sempre sento calculadamente na fileira à frente das janelas de emergência (você não precisa executar os procedimentos de super-homem, mas fica entre os primeiros a sair, se precisar).

Naquela posição habitual e sem o foninho habitual, ouvi algo pior que despertador em manhã de ressaca. Era a comissária de bordo falando com a fileira de eleitos.
– Por favor, senhores. Deixe eu passar as orientações para vocês que estão na janela de emergência: para abrir, basta puxar a alavanca!

Até aí tudo bem. Até aí.

– Que alavanca? Pergunta curioso o rapaz da janela.
– Esta, senhor.
– Mas e se não abrir?
– Abrirá, senhor.
– Mas e se estiver emperrada, enferrujada? Vocês não abrem essa janela sempre, abrem?
– Não, senhor.
– Se você que fez treinamento nunca a abriu, como quer que eu consiga na primeira tentativa?

A única coisa ouvida no avião neste momento é a batida dos corações assustados. A comissária já não está tão segura:

– Mais detalhes estão no cartão de instruções no bolsão à sua frente, senhor.
– Eu nunca li um manual de instruções na vida. Você espera que eu leia esse? E que eu o entenda? E que eu consiga abrir a porta? E que eu salve TODAS AS PESSOAS DESSE AVIÃO? E se eu for um suicida e não quiser operar a janela de propósito e ficar aqui rindo enquanto vocês tentam sair?

Nesse momento ouvimos choro vindo de todas as alas do avião e eu já estou com vontade de vomitar. A senhora que estava ao meu lado começa a ter um AVC. Outra comissária grita no tom anestesiado dos protocolos:
– Por favor, algum médico a bordo?

E aí, nosso herói da janela se manifesta mais uma vez. Ele já está de pé:
– Sou médico! Deixe eu dar as instruções. Tome o pulso dela.
– Mas… senhor, essa é uma situação de emergência! Ela pode morrer.
– Espere um minuto que eu tenho um manual sobre infartos iminentes. Que sorte estar na minha bagagem de mão. Página 17.

Ninguém podia acreditar naquilo. O final da história era de se esperar. A senhora morreu, o avião não decolou e o herói da janela saiu ovacionado. Ele conseguiu provar que um inapto não podia salvar ninguém. A partir daquele dia as companhias aéreas foram obrigadas a aumentar a tripulação: dois bombeiros passaram a viajar sempre nas janelas de emergência. Você provavelmente não sabe disso porque abafaram o caso e porque eles viajam sempre à paisana para não deixar os passageiros apreensivos.

Depois dessa dessa você, como eu, vai pensar duas vezes antes de dizer que tem uma quedinha por bombeiros.

 

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