O conto do chinês

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Ali, sem ar, com a coluna dobrada e já sem sentir as pernas, Seng quase se arrependia. Quase, porque um romântico jamais se arrepende. Muito menos um romântico chinês. É na China o maior número de corações da terra. Seng controlava o pouco ar que ainda restava pensando em como poderia sacrificar a vida por ela. Pensava que aquele ar que fugia por sabe-se lá onde – já que não havia um furo sequer na caixa – era seu momento Jack e Rose. Ele morreria congelado (só que ao contrário) e sem ar nos pulmões (essa parte correspondia) para surpreender a sua namorada. No trabalho dela. Dentro de uma caixa de papelão. Entregue pelos Correios.

Seng quase foi o último dos românticos. Ele quase morreu, mas viveu de novo ao ser salvo por ela, que abriu a caixa desapontada, achando que era uma entrega do Mercado Livre. E lá estava o namorado encolhido como um travesseiro magro, arrependido por não ter notado na noite anterior que ela repicou o cabelo. Isso ela até poderia perdoar, mas como esquecer a vergonha de ver o namorado saindo de uma caixa de papelão? Bem no meio do trabalho? E na frente de todos os colegas do escritório? Por sorte ele não conseguiu saltar e ficou lá, imóvel, olhando pra ela, roxo, não de vergonha, mas de semi-asfixia.

Tudo o que ela conseguiu foi dizer que era engano, assinando a devolução da caixa e marcando o endereço correto. Por sorte de Seng, o novo destino ficava bem ao lado e de lá ele nunca mais saiu, ganhando a vida fazendo contorcionismo. Sob um céu de lona, o adaptável Seng, sempre que saia de malas e armários e caixas procurava a namorada na primeira fila, na última, na do meio, em vão. Seng bem que pensou em se despachar para o Cirque du Soleil, mas o máximo de tempo que tinha conseguido ficar sem ar era o de uma paixão. Até o outro continente ele precisaria de um pouquinho mais de fôlego. Desistiu. Morreu de escoliose ventos depois.

 

Inspirado em fatos absurdamente reais.

 

 

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