O homem que se matou para casar.

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Era um inseguro. E de todas as inseguranças da vida, a que mais o consumia era sobre o amor de Irena. Perguntava 3 vezes ao dia se ela o amava. Era como o hábito de escovar os dentes. As vezes perguntava antes de escovar, noutras escovava antes de perguntar. Se tivesse que escolher gravata, perguntaria a opinião dela 5 vezes antes de dar o nó, mas por sorte trabalhava de macacão. Era um bom homem, o Alexey, mas por alguma coisa que hoje a psicologia chamaria de bullying na infância, ele não acreditava que pudesse ser amado. Não o suficiente.

Estava com Irena há 13 meses e disse que a amava no terceiro dia. Ela sorriu amarelo com aquela declaração tão precoce. Talvez foi por não ter ouvido um “eu também” imediato como o “saúde” que segue os espirros, a ferida da sua insegurança foi cutucada. Ela conseguiu soltar um “eu também” apenas na décima quinta vez que ele falou. E foi então que ele decidiu pedi-la em casamento.

Com a decisão tomada, alguma coisa soprou no coração de Alexey e o fez ter medo de ouvir um sorriso amarelo no lugar do esperado “sim”.  Ele precisava ter certeza de que Irena o amava antes de ficar de alma nua diante dela, usando apenas um anel dourado. Foi então que teve a grande ideia: resolveu simular a própria morte. Se ela sofresse, era porque o amava. Se tivesse muitas lágrimas, ele seguiria em frente. Se tivesse gritos, a lua de mel seria em Paris.

Alexey jogou no Google “formas de morrer” e achou que a de acidente de carro era a mais divertida, por que acidente tem sempre dor e medo e espetáculo. Vendeu as economias que tinha para dar entrada no apartamento dos dois e contratou a melhor equipe da TV para simular seu acidente fatídico. Teve sangue, carro amassado, ambulância, hematomas e muito ensaio. Ensaiou cerca de 7 vezes a posição da queda do pescoço do suspiro final. Pediu a opinião de especialistas do IML, pois se achava muito vivo. Até para morrer era inseguro. Pensava em como seria de fato no grande dia, em que não poderia morrer de novo para fazer melhor.

Enquanto testava caras de morto, o telefone de Irena tocou e uma voz fria perguntou se ela era ela. Nenhuma ligação que começa assim pode terminar bem. Ela colocou a mão no peito e no outro instante estava lá, vendo, inerte e de macacão vermelho, o namorado estirado no chão. Aos prantos, ela se debruçou em seu peito iniciando quase que de forma ensaiada a fase 1 do luto: negação. Antes que partisse para a fase dois, viu um sorriso de canto de boca se formar naquela boca de sangue-ketchup. Sorrindo, o fantasma balbuciou como se o assustado fosse ele:

–       Então você me ama mesmo? Casa comigo?

Talvez por haver câmeras ali, ela o abraçou instantes depois dizendo “sim”. Talvez por haver um balão dourado, talvez por haver fogos de artifício saindo do chão, talvez por ele ter comprado flores, talvez por ela ter pensado no seguro de vida dele, talvez por ver que o namorado tinha dinheiro para montar aquela parafernália toda, talvez por tudo isso ela tenha dito “sim”. O inseguro Alexey nunca soube porque de fato ela se casou com ele. Perguntava todos os dias. Ela respondia com sorrisos amarelos. Ele nunca soube. Saiu vivo do divórcio “eu te amos” depois e arrependido de não ter morrido de verdade para que ela o amasse para sempre.

 

 

Inspirado em uma loucura real.

 

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