Seu Raimundo

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Para quê Deus tinha dado pernas se não para ir de Pernambuco a Goiânia encontrar a filha mais velha e uma vida melhor?
Foi assim que seu Raimundo convenceu dona Maria Lúcia a deixar para trás sua casa de taipo emprestada, sua cama de barro e mais outras coisinhas que não vale a pena citar. E os dois saíram como se a estrada não fosse longa, o sol não fosse fogo e a velhice não fosse cansaço. Tinham a idade marcada na pele como trincas no chão da seca. Olhar para os dois fazia partir o coração, o pão, a água e a carona. E foi assim, dando seu jeito e o jeito que Deus queria que Raimundo e Maria Lúcia chegaram a Goiânia, depois de 3 meses que partiram de Petrolina.

No caminho ficaram lágrimas, fome, frio, sede, pena alheia, indiferença alheia, solidariedade de alguns e a carteira com os documentos e o endereço da filha, roubada numa madrugada de beira de estrada. Mas seu Raimundo, sem ter no que pensar nesses 90 dias de peleja, lembrava de cor e cordel o endereço da filha Maria Elizabete. Era de tanto mostrar o papel que trazia às doutoras e doutores do caminho, tentando moedas para inteirar a passagem. Ele era desses que chamava qualquer menino de senhor e doutor. É que achava que só assim um preto-pobre-pernambucano podia dirigir a palavra a alguém. É costume da terra, dizia seu Raimundo.E era costume chegar, mesmo levando uma vida a mais que uma pessoa com um pouco mais de sorte. E três meses depois ele estava em Goiânia, na cidade da filha e de uma vida melhor. Isso se ele e dona Maria Lúcia tivessem chegado 15 dias antes.Na casa da Maria Elizabete não tinha ninguém. Um vizinho disse que ela havia se mudado duas semanas antes. Para São Paulo. Sem deixar lenço, documento, telefone, Facebook, nada. Seu Raimundo disse que ela não tinha culpa do desencontro. Ele quem demorou demais pra chegar. Ele quem não avisou que vinha. Ele que fazia surpresa não por gostar, mas por contar com as surpresas divinas.

Seu Raimundo e dona Maria Lúcia eram dois pernambucanos há 1747 quilômetros de casa, sem dinheiro, sem lugar pra ficar, sem a filha e agora com pernas fracas para fazer o caminho de volta.

Os vizinhos da filha, agora paulistana, levaram os dois senhores para um abrigo, onde eles ficaram por duas semanas. E para quê Deus tinha dado fé se não era para acreditar Nele? Foi assim que seu Raimundo convenceu dona Maria Lúcia mais uma vez a caminhar. Mas antes que partissem conseguiram uma casinha paga pela igreja do bairro, e também uma cama, um fogão, uma geladeira, num ótimo negócio para o dono do Prego, para eles e para quem se uniu para ajudar. Um monte de gente boa dessa Goiânia que Deus um dia ia pagar. Seu Raimundo disse.

E aí, seis anos depois, o andarilho Raimundo caminhou até um sinaleiro para pedir dinheiro. Era para comprar remédio, ele mostrava receita e tudo, como os charlatões. Mas a dor era de verdade. Dona Maria Lúcia, que fez cirurgia no estômago, estava agora com um nódulo no seio e precisava operar a coluna. O SUS não tinha remédio e o médico prescreveu sorte, 3 caixas, 90 compridos e um monte de moedas que ele não sabia de onde tirar. Mas nos olhos do seu Raimundo tinha alguma coisa de muita força, de quem saiu a pé sem medo de andar e sem duvidar das próprias pernas. Com fé em Deus, ele ia conseguir. Seu Raimundo disse.

Essa história é real.
O nome das filhas de seu Raimundo são:

Maria Elizabete Ferreira de Souza – foi para São Paulo
Maria Elza Ferreira de Souza – ficou em Petrolina

Seu Raimundo não tem endereço e telefone delas e nenhum contato há 6 anos. Vai que você por acaso tenha uma pista ou uma ideia de como achá-las.

 

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