Virou história. Marcada na pele – por Lara Falluh

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– Mãe, posso furar a cartilagem?

– Não!

– Por favor, mãe….

– Não! Se você quiser fazer uma tatuagem eu até deixo, mas furar a cartilagem, não.

E foi com esse diálogo que o universo das tatuagens passou a fazer parte da minha vida. Como toda mãe super legal, a minha foi ao estúdio comigo, me deu apoio moral e ainda pagou pela brincadeira, mas como não podia deixar de fazer seu papel de mãe, finalizou com a frase:

– Deixei a Lara fazer essa tatuagem pra matar a vontade, agora ela só faz outra depois que eu morrer.

Tadinha, mal sabia ela o que estava fazendo. Tomei todas as precauções que uma pessoa que quer muito tatuar, mas que tem medo, normalmente toma. Primeiro escolhi um lugar que eu não visse muito, porque aí não enjoaria. Também escolhi um lugar fácil de tampar, afinal eu não sabia qual profissão escolheria para o resto da vida. E, por último, escolhi um lugar que doía pouco, porque ninguém merece ficar sofrendo, né? Depois de tudo isso escolhi o desenho e lá estava eu, linda, no auge dos meus 14 anos com uma borboleta tatuada atrás da nuca.

A reação do meu pai foi a mais engraçada. Eu linda, no auge dos meus 14 anos, liguei toda empolgada pra contar sobre minha nova borboleta tatuada atrás da nuca e ele me disse:

– Você tá louca, menina? Tatuagem não é igual mecha no cabelo que você faz e quando enjoa pinta. Tatuagem é pra sempre. Mas eu realmente acreditava um pouco naquilo que ele tinha me falado e por isso a segunda demorou um pouco mais.

Quatro anos depois veio a segunda. Pensei todas aquelas coisas de novo, passei um tempo refletindo e pronto, tatuei! Uma semana depois que eu fiz a tatuagem, uma amiga da escola viu, gostou e veio me pedir indicação do estúdio. Super indiquei, e ela fez, duas tatuagens em uma semana. Quando olhei aquilo, foi a minha vez de surtar. “Você tá louca menina? Duas tatuagens em uma semana? Tatuagem é pra vida inteira, tem que ser muito bem pensado. Nesse rítimo, daqui uns dias você vai tatuar seu nome na testa!” Ela olhou bem pra minha cara e me disse uma coisa super importante: “Doida é você! Eu nunca vou me arrepender das minhas tatuagens. Eu estou marcando uma coisa da minha vida que eu acho importante. Se algum dia eu pensar em me arrepender, vou pensar no quanto aquilo foi importante no momento”. Ai se ela soubesse como essas palavras mudaram minha vida. Depois disso, sininhos tocaram e meu mudo se abriu.

Eu fui amadurecendo esse pensamento até que um dia minha madrasta me contou que uma amiga dela não deixou a filha fazer uma tatuagem e alegou: “Você consegue usar a mesma blusa por um ano? Não? Então você não consegue ter uma tatuagem a vida inteira”. Quando eu ouvi esse absurdo falei pra minha madrasta: “Você enjoa da sua filha? Não? Nem eu das minhas?”.

Sim. Minhas tatuagens são minhas filhas, mês bebês, e ai de quem falar que não! Eu acho que tatuagem é um filho mesmo, você sonha com ela, engravida desse sonho, e eu dia ela nasce. E sim, fazer uma tatuagem dói, não sei se tanto quanto um parto, mas dói horrores, a pressão abaixa, você acha que não vai conseguir e até pensa que vai morrer, mas tudo vale a pena quando você vê a carinha dela pronta pela primeira vez! É amor demais!!!

Depois de um tempo, aquelas coisas com as quais eu me importava tanto no começo passaram a não fazer tanto sentido mais, porque dor você sabe que passa, e enjoar não enjoa. Tampar também é fácil, nada que uma boa base teatral não esconda. Depois de um tempo, o que passa a fazer sentido é o que significa, o que marca, o que você tá sentindo, é se representar. Tatuagem pra mim é isso: é muito amor!

Preciso confessar que hoje em dia não faria três das tatuagens que tenho. Mas é tão gostoso olhar pra elas e lembrar da Lara que um dia tatuou aquilo e do quanto aquilo já significou.

Mas e quando você ficar velha? E se seu futuro namorado não gostar? E se…. Ai Jesus, é “e se” demais, né? Deixa a vida acontecer, afinal as tatuagens são minhas e o amor também é meu.  Hoje são nove. Lindas, amadas e não tão pequenas.

 

Texto de Lara Falluh. Tatuada, sonhadora, uma grande amiga e autora do livro que será lançado em breve: Young. I Want To Be.

 

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