Anatomia do Fim

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O alerta vai direto para o seu estômago. É sempre para ele. Nada de cérebro ou coração. Seu estômago sabe primeiro. E sim, é por causa das borboletas. A expressão “borboletas no estômago” não é uma metáfora como você talvez imaginasse, é ciência. É como “pedra nos rins”. Mas como borboletas são coloridas, caíram em descrédito e entraram no campo fluido da poesia. As pessoas operam de pedras nos rins todos os dias, ninguém tem coragem de dar entrada no hospital por conta de borboletas no estômago. Melhor. Ainda não há cura. E como todas as faltas de curas do mundo, essa também é por falta de interesse. Não reclame. Você não quer se curar. Mas talvez queira entender como funciona o Fim. E a química está no estômago, campo de voo das borboletas.

Repare que quando você recebe o alerta do fim, por qualquer de seus canais sinestésicos, a primeira coisa que você faz é engolir em seco. E quando faz isso, elas sabem: é hora de partir. Essa sirene de gosto amargo, silenciosa pra você, tem o som do despertador de um Nokia para elas. É essa a trilha sonora do enfileramento de memórias que invadem seus pensamentos neste instante. As borboletas se assustam e batem asas apavoradas. Voam em círculos, com movimentos nervosos. São eles os responsáveis pelo vento que você sente no peito e pela nuvem que se forma em seus olhos. Instintivamente, você sabe que são elas querendo sair, e você tenta sorrir para ver se escapam por onde entraram, mas elas se perdem no caminho, é tudo escuro agora. Um dos sintomas imediatos é você se achar perdido, sem chão. Isso nada mais é que um ato-reflexo do seu cérebro em resposta ao sem-rumo das borboletas.

Assustadas com a batida do seu peito, elas batem asas enquanto lembram, presas em alguma esquina entre seu coração e pulmão. Seu cérebro, por defesa legítima, distancia-se. Ele não acredita em borboletas. É quando falam e você não escuta ou quando responde que estava longe. Seu cérebro foi antes. Também há uma explicação para a suas mãos geladas: a morte é fria. As borboletas já não vivem, suas asas se soltaram. As borboletas sem asas voltam a ser inocentes lagartas. Infelizmente elas não viram lágrimas, como você poderia estar imaginando. Seria bonito e poético, mas estamos falando de anatomia. Essas lagartas inertes são o que você chama de “mágoa”. Encare isso: você carrega lagartas no peito! Quanto mais delas, mais o epidêmico “peito apertado”. E como você sabe, passa. É que a anatomia do Começo é mais simples. Às vezes basta o sopro de suspiro para que asas se formem e borboletas ressurjam. E e mais rápido também. Elas já conhecem o caminho em direção ao estômago.

 

Sussy Côrtes

 

 

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