Susto de escuro

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Maria Carla tinha medo de escuro. “Que coisa mais óbvia!”, você deve estar pensando. “Criança ter medo de escuro, é como rato ter medo de gato”. Mas não é bem assim. Carlinha não tinha medo de apagarem a luz quando ela fosse dormir ou medo de acordar de madrugada e estar tudo naquele breu. Carlinha tinha medo de quando era luz e de repente era escuro. Sem ter que escovar os dentes antes, sem ter que colocar pijama, sem ter quer pensar se tinha feito toda a tarefa de casa. Tinha medo de quando era noite de repente, no meio do seu dia, de quando era noite no meio do caminho. As mãos de Carlinha suam frio só de lembrar. Ela tinha acabado de se mudar com a família para o Rio de Janeiro. E estava encantada com aquela cidade que parecia desenhada por todos os 48 lápis da sua caixa especial Faber Castel. Nunca tinha visto o mar, nem casinhas feitas na montanha e tão pertinho uma da outra. Antes de tudo sumir, ela estava imaginando que só podiam ter sido coladas lá com aquela cola que prega o dedo se você bobear e que seu pai tinha usado para consertar o vaso que ela quebrou sem querer. E então tudo sumiu. Seus ouvidos até fizeram um zunido, como se tivessem se escondido de tanto susto.

Ela gritou:
– Mamãe!!!
Era um grito alto, cheio de medo e de dúvida.
– Que foi, Maria Carla?
Sua mãe estava lá. Ufa!
– Cadê tudo, mãe?

A mãe de Maria Carla sempre respondia o que a menina perguntava: “Está lá fora, filha”. Então elas tinham mesmo entrado dentro de alguma coisa! E quando Maria Carla puxou o ar para soltar em forma de grito, o sol apareceu de novo e com ele a rua e o mundo, como se nunca tivessem sumido. Maria Carla achou que talvez fosse coisa da sua cabeça. A professora dizia que ela vivia mesmo no mundo da lua. Talvez o mundo da lua fosse assim, um pedacinho da noite no meio do dia.

E era desse jeito em todos os retornos da escola. Mãos suando frio e gritinhos agudo-menina. A mãe dela sempre se assustava também. Dizia que era por causa do grito, mas Maria Carla sabia que sua mãe também tinha medo daquele engole-luz e que disfarçava porque adultos têm que disfarçar tudo. E então, por amor, a menina gritava para que sua mãe pudesse colocar também um pouco de susto pra fora.

Foi assim até aquela quarta-feira. O dia em que Maria Carla teve a grande ideia: levou para a escola seus óculos de brinquedo. Como não tinha pensado nisso antes? Na aula de artes, sem que a professora visse, a menina pintou as lentes, tão escuras, de amarelo. No caminho da volta para casa, quando sentiu que suas mãos começavam a chorar gelado, Maria Carla colocou imediatamente os óculos na ponta do nariz. Naquela dia, seu riso cortou o ar no lugar do agudo-menina. Maria Carla tinha resolvido sozinha o problema e inventado o óculos-com-sol. E não teve mais medo do esconde-luz. Nem de túnel.

 

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