Um conto goiano

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Zé Capote vendia frango caipira na feira. Caipira de verdade, daqueles de carne dura e malhada, de bicho que corre solto. E frango caipira do Zé Capote só ouvia modão. O preferido era “Franguinho na panela”, sabe qual? Joga no YouTube e pega o lenço. Moda forte, das boas, temperadas de história. Os frangos caipiras de Zé Capote eram caipiras sistemáticos. Cantavam todo dia na hora que queriam. E eram vendidos a 30 reais.
– 30 reais, seu Zé? Mas aí o senhor me quebra.
– Que isso, dona moça… Aqui é caipira mesmo, só falta puxar o R no cocoricó.
– Mas tá caro, seu Zé! E ainda tenho que comprar o milho pra fazer o angu.
– Leva o pequi que tá mais em conta!
– Mas se eu levar pequi tenho que levar gueroba. Lá em casa é assim. Se tem um, tem que ter o outro. Aí começa a ficar uma fortuna esse almoço.
– Mas cê não tá falando de almoço, tá falando de banquete. É diferente. Tem que gastar mais um pouco.
– Ah não, seu Zé! Dá um desconto aí. Se não vou acabar levando frango assado na TV de cachorro. Tá pronto e tá metade do preço.

Seu Zé Capote raiou com ela de um jeito tão bravo, mas tão bravo, que a dona Eurídes, da banca de alface do lado, teve que acudir. Onde é que já se viu comparar seu frango caipira com frango de televisão de cachorro? Seu Zé Capote disse que não vendia mais, nem se ela pagasse 50! A dona moça, porque seu Zé não quis nem perguntar o nome dela, saiu dali quase chorando e arruinou o almoço de domingo da família com comida japonesa.

Zé Capote voltou pra casa cheio de frango (é que frango caipira não aceita plural) e de dignidade. Ele nunca vendeu um frango na vida. Mas ia pra feira todo domingo, que era macho, mas empanzinava só de pensar em enfrentar a crista da mulher. Olhou pro Patrício, o frango mais alto, sorriu cheio de cumplicidade e ligou o rádio da sua Belina 72. Os caipira cantavam junto.

 

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